Um El Niño forte pode elevar em 19,9% os preços dos alimentos in natura e acrescentar até 0,83 ponto percentual ao IPCA, segundo modelo do Rabobank divulgado neste domingo (23).
A projeção não representa uma alta garantida. Ela estima o possível repasse do choque climático aos alimentos consumidos em casa, com efeito mais intenso cerca de seis meses depois, caso o fenômeno mantenha força elevada.
O ponto de partida da inflação é mais moderado: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou IPCA de 0,07% em julho, ante 0,26% em julho de 2025. Em 12 meses, a taxa recuou de 4,64% em junho para 4,44% em julho, enquanto alimentação e bebidas caiu 0,67% no mês.
Entre os produtos que ficaram mais baratos em julho, o tomate caiu 29,09%, a batata-inglesa, 19,59%, a cenoura, 14,41%, e o café moído, 2,45%. A queda observada no mês não elimina o risco de pressão futura caso o fenômeno prejudique safras e reduza a oferta.
Cenário forte concentra pressão nos produtos frescos
O modelo compara a intensidade do El Niño, medida pela variação da temperatura do Oceano Pacífico, com a inflação da alimentação no domicílio em episódios anteriores. No cenário moderado, os produtos in natura subiriam 13,4% em 12 meses e o efeito total sobre o IPCA seria de 0,41 ponto percentual.
No cenário forte, a alta de 19,9% dos alimentos frescos acrescentaria 0,53 ponto ao índice. Produtos semielaborados avançariam 3,6%, com impacto de 0,20 ponto, e industrializados subiriam 1,4%, adicionando 0,11 ponto. O efeito total informado chega a 0,83 ponto percentual, sem significar que o IPCA necessariamente aumentará nessa proporção.
Hortaliças tendem a reagir primeiro porque têm ciclos de produção mais curtos. Carnes, milho, café, frutas, laranja, cana-de-açúcar, trigo, arroz e leite também estão entre os produtos expostos, mas o efeito pode variar conforme a safra, a região e as condições de oferta.
Banco Central incorpora El Niño forte às projeções
O Relatório de Política Monetária do Banco Central, publicado em junho de 2026, adota como referência a formação de um El Niño forte. A projeção considerada pela autoridade monetária aponta RONI de 2,1°C no quarto trimestre de 2026.
O modelo do Banco Central indica pressão inflacionária inicial e efeito baixista após três trimestres, com normalização depois do fenômeno. Isso significa que a intensidade do choque e sua duração são decisivas para o resultado final sobre os preços.
A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informou em 13 de agosto de 2026 que o fenômeno está se fortalecendo e atribuiu probabilidade superior a 90% para um evento muito forte durante o outono e o inverno de 2026-2027 no Hemisfério Norte. Em julho, a região Niño 3.4 apresentava anomalia de 1,4°C.
Repasse ao consumidor varia conforme região e cadeia de alimentos
Para as famílias, o principal risco está nos produtos frescos, cuja oferta responde mais rapidamente a excesso ou falta de chuva e a temperaturas elevadas. O impacto efetivo no orçamento dependerá também do peso de cada item no consumo, da região e da transmissão dos custos entre produção, transporte, indústria e varejo.
O cenário aponta resposta mais rápida em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Brasília, Fortaleza e Belém. Em Salvador e Recife, o repasse inicial seria mais gradual.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicou persistência de um El Niño forte no trimestre de julho a setembro de 2026. Câmbio, estoques, importações, fretes, combustíveis e condições da safra podem ampliar ou neutralizar parte da pressão prevista.
Como a defasagem estimada é de aproximadamente seis meses, o efeito mais relevante pode aparecer entre o fim de 2026 e o início de 2027. Até lá, a evolução do fenômeno e a capacidade da cadeia de alimentos de absorver perdas determinarão quanto do choque chegará ao orçamento das famílias e ao IPCA.



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