A violência contra equipes de saúde dificulta nesta segunda-feira (24) a contenção do maior surto de ebola já documentado na República Democrática do Congo, com 4.665 casos confirmados em seis províncias.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) contabilizava, em 12 de agosto, 2.184 mortes e 965 pessoas recuperadas. A letalidade bruta era de 46,8%: quase uma morte a cada dois casos confirmados. O vírus já alcançava 54 zonas de saúde, enquanto 12 ataques contra estruturas ou trabalhadores da resposta haviam sido confirmados desde 17 de maio.
Os episódios de violência, somados a paralisações de trabalhadores, interrompem atividades essenciais, como enterros seguros, vacinação, investigação de casos e rastreamento de contatos. Os ataques também reduzem o acesso das equipes e desestimulam a procura por assistência. A vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde congolês mantém a epidemia de Bundibugyo classificada como ativa.
Ituri concentrava 3.979 dos 4.665 casos congoleses e 1.726 das 2.184 mortes em 12 de agosto. Na semana epidemiológica de 3 a 9 de agosto, a OMS registrou 579 casos e 304 mortes, sinal da velocidade de expansão da doença.
Surto de 2026 supera epidemias anteriores no país
O avanço atual ocorre em escala superior à dos episódios anteriores descritos no histórico sanitário congolês. Em 2012, um surto causado pelo vírus Bundibugyo deixou 59 casos e 34 mortes. Entre 2018 e 2020, a epidemia de Kivu, provocada por outra espécie do vírus, acumulou 3.317 casos confirmados e 2.299 mortes.
Em 2026, a República Democrática do Congo declarou seu 17º surto registrado de ebola em 15 de maio. Dois dias depois, a OMS reconheceu uma emergência de saúde pública de importância internacional. O agente é o vírus Bundibugyo, espécie diferente do vírus Zaire associado a muitos surtos anteriores.
O relatório regional da OMS mostra que a letalidade bruta passou de 46,8% em 12 de agosto para 47,4% nos dados de 16 de agosto. O avanço atinge Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uélé, Tshopo e Bas-Uélé.
O ebola é transmitido pelo contato direto com sangue e outros fluidos corporais de pessoas infectadas, vivas ou mortas, ou com objetos contaminados. A contenção depende da identificação rápida dos casos, isolamento, rastreamento de contatos, práticas seguras nos sepultamentos e proteção das equipes.
Vacina chega ao Congo, mas uso contra Bundibugyo será experimental
Mais de 16 mil doses da vacina Ervebo chegaram ao país em 22 de agosto. O imunizante foi desenvolvido para outra espécie do vírus e não é aprovado especificamente contra o Bundibugyo. A OMS propôs que seu uso seja avaliado em ensaio clínico.
A estratégia de vacinação em anel prioriza contatos de pessoas infectadas, contatos desses contatos e trabalhadores expostos, mas exige acesso contínuo às comunidades. Ataques, deslocamentos e paralisações reduzem a capacidade de localizar essas pessoas e agir rapidamente quando aparecem sintomas.
Em 20 de agosto, a OMS avaliava como muito alto o risco dentro do Congo e alto o risco para países vizinhos. Para o restante da região e para o cenário global, a classificação permanecia baixa. Casos importados foram identificados em Uganda, França e Alemanha, sem registro de transmissão sustentada fora da República Democrática do Congo.
No Brasil, o Ministério da Saúde informa que não há caso confirmado no país, conforme a atualização epidemiológica de 16 de junho de 2026, e mantém protocolos para identificação, isolamento e investigação de suspeitas. No Congo, a contenção depende agora de preservar o acesso das equipes às comunidades para interromper cadeias de transmissão, acompanhar contatos e realizar sepultamentos seguros.



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