Bets drenam renda e levam moradores de periferias a buscar tratamento – PIRANOT

Relatos publicados neste domingo (23) mostram como o uso problemático de apostas online tem levado moradores de áreas periféricas do Distrito Federal aos serviços públicos de saúde após dívidas, perda de patrimônio, conflitos familiares e sofrimento mental.

Um dos apostadores relatou dívida superior a R$ 200 mil, além da venda do carro, dos móveis e da casa da família. Outro estimou perdas superiores a R$ 100 mil. As identidades foram preservadas devido à situação de vulnerabilidade, e os valores correspondem aos relatos dos entrevistados.

O Ministério da Saúde registra 10.553 atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) associados aos códigos de jogo patológico e hábitos ligados a apostas entre janeiro de 2018 e maio de 2025. Desse total, 4.316 foram ambulatoriais e 6.237 ocorreram na Atenção Primária. Os registros correspondem a procedimentos, não ao número nacional de pacientes.

Publicidade

Publicidade

Durante o período analisado, o Ministério da Saúde identificou aumento de 104% nos atendimentos. Em 2024, 43% dos registros eram de mulheres e 57% de homens, com prevalência entre pessoas de 20 a 49 anos. A série consolidada termina em maio de 2025 e, por isso, não mede a procura pelo SUS em 2026.

Dívidas atingem sono, família, trabalho e patrimônio

Os casos descrevem um ciclo no qual ganhos iniciais e a expectativa de complementar a renda deram lugar a apostas repetidas, empréstimos, venda de bens e conflitos familiares. Um dos apostadores relatou permanecer acordado durante a madrugada e perder o controle sobre valores destinados às despesas domésticas.

Kaio, nome fictício, contou que vendeu o carro, os móveis e a casa, deixou o emprego e viu o casamento terminar enquanto acumulava mais de R$ 200 mil em dívidas. Ele passou a frequentar um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), onde participa de grupos terapêuticos.

Ricardo, também identificado por nome fictício, estimou perdas superiores a R$ 100 mil. Ele relatou privação de sono, dificuldade para pagar pensão alimentícia e o fim de um relacionamento, mas disse não se considerar dependente porque não precisou vender bens para pagar as dívidas.

Publicidade

O Ministério da Saúde classifica o transtorno do jogo como um transtorno de comportamento aditivo reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID) e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Entre os sinais de alerta estão gastar mais tempo ou dinheiro que o planejado, não conseguir interromper as apostas e apresentar alterações no sono, na alimentação, no humor e na rotina.

Ansiedade, irritabilidade, culpa, vergonha, mentiras e comprometimento das relações ou do orçamento também podem indicar a necessidade de ajuda. A avaliação deve ser individual e considerar os danos financeiros, emocionais, familiares e profissionais, sem presumir diagnóstico apenas pelo valor perdido.

Em 2023, levantamento do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas (INPAD), reproduzido no guia federal de 2026, apontou que 25,9% dos brasileiros já haviam jogado ou apostado. Entre os jogadores, 4,4% apresentavam alto risco de envolvimento problemático.

Publicidade

Tratamento pode começar na UBS e seguir para o CAPS

O cuidado pode começar em uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Casos que exigem atenção especializada podem ser encaminhados aos Centros de Atenção Psicossocial. O país tem 3.120 CAPS em funcionamento, conforme o Ministério da Saúde.

O plano terapêutico pode combinar atendimento individual, grupos, participação da família e acompanhamento de outros problemas de saúde. O guia federal recomenda identificar situações de risco, definir estratégias adequadas a cada paciente e integrar os diferentes pontos da rede pública.

Meu SUS Digital amplia teleatendimento para apostadores

O serviço de teleatendimento do Meu SUS Digital começou em março de 2026 com capacidade de 600 atendimentos mensais. Em 4 de agosto de 2026, o Ministério da Saúde anunciou a ampliação da capacidade para até 100 mil teleatendimentos mensais destinados a pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas.

Para acessar o serviço, o usuário entra no Meu SUS Digital com a conta gov.br, abre a área de Miniapps, seleciona a opção de saúde mental para quem aposta e responde a um autoteste. Conforme o risco identificado, pode solicitar o teleatendimento.

As consultas remotas duram aproximadamente 50 minutos, preferencialmente uma vez por semana. O ciclo inicial poderá chegar a dez sessões, seguido de reavaliação. A capacidade anunciada representa o limite de oferta do serviço, não a quantidade de pacientes já atendidos.

Autoexclusão bloqueia contas e publicidade direcionada

Outra frente é a autoexclusão centralizada, mecanismo da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda que bloqueia contas e novos cadastros vinculados ao CPF nas plataformas autorizadas. A medida também interrompe publicidade direcionada, mas não substitui o acompanhamento em saúde e pode não alcançar sites clandestinos.

A Portaria SPA/MF nº 2.579/2025 tornou obrigatórios limites cadastrais de perda financeira e tempo de uso. Já a Portaria SPA/MF nº 1.231/2024 proíbe anúncios que apresentem as apostas como forma de enriquecimento, sucesso ou solução financeira e exige advertências sobre a restrição etária e o risco de dependência.

Quem enfrenta sofrimento relacionado às apostas pode procurar uma UBS ou um CAPS. Em situação de urgência, a orientação é buscar uma Unidade de Pronto Atendimento ou pronto-socorro, acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência pelo 192 ou ligar para o Centro de Valorização da Vida no 188. Em perigo imediato, a pessoa não deve ficar sozinha e precisa receber atendimento de emergência.


Pausa pra jogargrátis, sem cadastro

Você também pode se interessar


Fonte: Piranot – Link original da matéria

Post Relacionados

Deixe uma Resposta

Deixe um comentário

erro: Content is protected !!