Flávio Bolsonaro recusou, na segunda-feira (24), em São Paulo, detalhar o financiamento do filme “Dark Horse” e atribuiu à produtora a responsabilidade pela prestação de contas, mais de três meses após prometer esclarecimentos em 30 dias.
Questionado sobre a falta dos documentos, Flávio respondeu: “Vocês vão parar no tempo? Não sou eu que tenho que prestar conta, é o Lula”. A declaração não esclareceu quem aportou todo o dinheiro, quais contratos sustentaram os repasses nem como foram comprovados os gastos atribuídos à produção.
A cobrança também chegou à Câmara dos Deputados. A PFC 13/2026, apresentada em 14 de maio, pede que a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle examine possíveis irregularidades na negociação atribuída ao senador, com auxílio do Tribunal de Contas da União. O procedimento ainda não equivale à comprovação de irregularidade.
Negociação de R$ 134 milhões contrasta com gasto declarado de R$ 75,1 milhões
Os valores têm naturezas diferentes. A negociação atribuída a Flávio alcançaria R$ 134 milhões, enquanto a produtora Go Up Entertainment declarou ter gasto R$ 75,1 milhões. A diferença aritmética é de R$ 58,9 milhões, mas os registros apresentados não permitem concluir que todo o montante negociado tenha sido efetivamente transferido.
Daniel Vorcaro destinou R$ 61 milhões ao projeto por meio de um fundo nos Estados Unidos, o equivalente a 81,2% do custo declarado. A produtora também informou despesas de R$ 54 milhões no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil. O laudo particular contratado pela defesa não reproduz recibos, notas fiscais, contratos ou extratos que sustentem os cálculos.
O custo declarado de R$ 75,1 milhões corresponde a 69,5% do contrato municipal de R$ 108 milhões firmado com o Instituto Conhecer Brasil para a instalação de pontos de wi-fi em São Paulo. A comparação não comprova transferência de recursos entre os projetos, e não há conclusão pública de que dinheiro municipal tenha financiado o filme.
Produtora e instituto pertencem à mesma empresária
Karina Ferreira da Gama controla a Go Up Entertainment, responsável por “Dark Horse”, e o Instituto Conhecer Brasil, contratado para o projeto municipal. As duas entidades foram identificadas no mesmo endereço. A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo investigam possíveis irregularidades no contrato de wi-fi.
Em 23 de julho, o ministro André Mendonça autorizou a abertura de inquérito da Polícia Federal para verificar a origem, o caminho e a destinação dos recursos ligados a Vorcaro. As investigações federal e estadual têm objetos distintos e, até o momento, não produziram conclusão pública de irregularidade no financiamento do filme.
Flávio atribui prestação de contas à produtora e direciona cobrança a Lula
Em 19 de maio, Flávio havia afirmado que as informações financeiras seriam apresentadas em até 30 dias. Na segunda-feira, depois de transcorridos mais de três meses, declarou que caberia à produtora prestar contas e questionou por que a cobrança não era dirigida a Lula. A resposta deslocou o foco político, mas não solucionou as lacunas documentais relativas ao filme.
A Go Up declarou anteriormente que o orçamento executado estava próximo de US$ 13 milhões e atribuiu cerca de 90% do financiamento a Vorcaro. Também afirmou que o filme continuava em pós-produção e ainda precisava de recursos. Flávio nega irregularidade, sustenta que a relação era privada e afirma que a produtora apresentou dados no inquérito. A empresa diz colaborar com as autoridades e esperar a confirmação da regularidade dos recursos.
Câmara abre caminho para controle parlamentar
Além da proposta de fiscalização, o REQ 2982/2026 pede informações sobre fatos envolvendo o Instituto Conhecer Brasil, a produtora e “Dark Horse”. Os documentos estabelecem uma via de controle parlamentar, mas não registram conclusão do Tribunal de Contas da União nem decisão definitiva sobre as alegações.
Com a PFC 13/2026 e o requerimento protocolados, a Câmara poderá cobrar documentos e informações institucionais durante a tramitação na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle. A consequência imediata é submeter a negociação envolvendo o filme ao escrutínio formal do Legislativo, paralelamente aos inquéritos já abertos.



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