O Hospital Angelina Caron contestou nesta sexta-feira (21), em Campina Grande do Sul, a acusação contra uma médica por seis mortes ocorridas em 2024 na UTI pediátrica da instituição.
Em nota, o hospital afirmou que a conclusão que associa os óbitos à atuação da profissional “não corresponde, até o presente momento, ao que foi tecnicamente apurado”. O posicionamento contrapõe a acusação apresentada pelo Ministério Público do Paraná (MPPR), mas não encerra o processo nem substitui a análise judicial das provas.
A denúncia oferecida pelo MPPR em 14 de agosto atribui à médica, ex-diretora técnica da unidade, seis homicídios culposos. A Justiça recebeu a acusação na segunda-feira (17), abriu a ação penal e tornou a profissional ré, sem declará-la culpada. A defesa da médica não foi localizada para comentar o caso.
Acusação aponta falhas de biossegurança; hospital contesta nexo causal
Em 2024, entre maio e julho, seis crianças e recém-nascidos morreram durante internações na UTI pediátrica. Segundo a acusação do MPPR, os pacientes sofreram choque séptico e falência múltipla de órgãos relacionados a uma contaminação intra-hospitalar por bactérias multirresistentes.
A Promotoria atribui à médica omissão na fiscalização de medidas de assepsia e biossegurança. A denúncia menciona reutilização de luvas, privação de banhos e manuseio inadequado de tubos e acessos. As condutas descritas constituem alegações da acusação e ainda serão submetidas ao contraditório e ao julgamento.
O hospital sustenta que os pacientes apresentavam doenças de base, históricos clínicos e condições de saúde diferentes. Por isso, argumenta que os casos não podem ser tratados como decorrentes de uma única causa sem demonstração médica, microbiológica e epidemiológica.
Segundo a nota institucional, uma perícia oficial analisou a adequação das condutas médicas, a possibilidade de infecção adquirida no hospital e uma eventual relação com um dos óbitos. A instituição afirma que esse exame não identificou ação ou omissão da equipe que tivesse contribuído para o desfecho. Também declara que a autoridade policial sugeriu o arquivamento daquele procedimento e que um órgão técnico do MPPR não apontou falhas nas condutas examinadas.
Essas conclusões representam a versão do hospital, pois os documentos técnicos citados não foram divulgados integralmente. Também não está esclarecido se os pareceres abrangem as seis mortes descritas na denúncia, ponto determinante para comparar o alcance das análises com a acusação do MPPR.
A instituição acrescentou que infecção ou sepse durante uma internação não comprova, isoladamente, origem hospitalar, transmissão entre pacientes ou responsabilidade profissional. Não foram apresentados publicamente dados microbiológicos que confirmem ou afastem contaminação cruzada entre os pacientes.
Recebimento da denúncia torna médica ré, mas não comprova culpa
O recebimento judicial permite que a acusação seja examinada em ação penal. O mérito ainda não foi julgado, e as imputações de homicídio culposo continuam sendo alegações do órgão acusador sujeitas à produção de provas, ao contraditório e à manifestação da defesa.
O MPPR pediu reparação mínima de R$ 50 mil para cada família, totalizando R$ 300 mil caso a pretensão seja acolhida. O valor não constitui indenização já concedida: dependerá do resultado do processo e das decisões judiciais posteriores.
O hospital informou que continuará entregando documentos às autoridades, mas não divulgará prontuários, diagnósticos individualizados ou informações clínicas protegidas de crianças e adolescentes. Com a denúncia recebida, a médica passa a exercer sua defesa na ação penal, na qual serão confrontadas a tese do MPPR e as análises técnicas citadas pela instituição.



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