A Sociedade Brasileira de Pediatria alertou nesta segunda-feira (24) que crianças e adolescentes não devem usar canetas emagrecedoras por estética ou sem supervisão, embora existam indicações médicas pediátricas específicas no Brasil.
O alerta separa o tratamento legítimo da obesidade ou do diabetes tipo 2 da busca por alteração da aparência. A entidade afirma que a prescrição não é automática nem mesmo quando há diagnóstico: o médico deve considerar a gravidade da doença, comorbidades, tratamentos anteriores, riscos e condições de acompanhamento do paciente.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o Wegovy, à base de semaglutida, para controle de peso em adolescentes a partir de 12 anos com obesidade e peso corporal superior a 60 quilos. Já o Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida, pode ser indicado a partir dos 10 anos para diabetes tipo 2. Essas autorizações não abrangem o uso meramente estético por jovens com peso adequado.
Indicação pediátrica exige critérios e acompanhamento contínuo
Em 2023, a Anvisa ampliou a indicação do Wegovy para o público adolescente. No estudo apresentado ao órgão, conduzido durante 68 semanas, 95 dos 131 participantes tratados com semaglutida — 73% — perderam ao menos 5% do peso corporal. No grupo placebo, o resultado foi observado em 11 dos 62 participantes, ou 18%.
A Sociedade Brasileira de Pediatria informa que a evidência disponível aponta eficácia e segurança em adolescentes quando os medicamentos são empregados dentro dos critérios estudados e associados a intervenções sobre o estilo de vida. O problema identificado pela entidade é a banalização do tratamento, sobretudo em conteúdos de redes sociais que o apresentam como recurso para adequação a padrões estéticos.
Segundo a entidade, o uso estético também pode funcionar como gatilho para anorexia, bulimia, ansiedade e quadros depressivos relacionados à imagem corporal.
Os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais, como náuseas, vômitos, refluxo, azia, diarreia e constipação, principalmente durante o aumento gradual da dose. A entidade também menciona perda de massa magra e classifica pancreatite, hipoglicemia e formação de cálculos biliares como eventos potencialmente graves. Sem acompanhamento, o uso inadequado ainda pode provocar desidratação, distúrbios eletrolíticos e prejuízos ao crescimento ou ao desenvolvimento.
O alerta contraindica esses medicamentos para pessoas com hipersensibilidade aos componentes da fórmula, gestantes, lactantes e pacientes com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2. Antecedente de pancreatite exige avaliação médica individualizada, segundo a entidade.
Receita retida amplia controle sobre a venda
Em 2025, a Anvisa tornou obrigatória a retenção de uma das duas vias da receita de agonistas de GLP-1 nas farmácias e drogarias. A prescrição tem validade de até 90 dias. A medida permite o acesso aos tratamentos autorizados, mas acrescenta controle à dispensação de medicamentos sujeitos a uso inadequado.
Em 6 de abril de 2026, a agência informou ter realizado 11 inspeções, oito interdições e dez ações de proibição desde janeiro. O órgão intensificou a fiscalização após identificar riscos de esterilização inadequada, falhas de controle de qualidade e uso de insumos farmacêuticos sem origem ou composição identificadas em produtos importados ou manipulados irregularmente.
Famílias devem verificar se o produto possui registro na Anvisa e procurar pediatra ou endocrinologista pediátrico para avaliação individual. Suspeitas de venda irregular podem ser encaminhadas à Vigilância Sanitária municipal ou à agência. Na prática, a existência de uma indicação pediátrica não autoriza o uso por conta própria: diagnóstico, receita, produto registrado e acompanhamento médico continuam obrigatórios.



Deixe uma Resposta