ABL e UFRJ protegem originais do Hino Nacional contra deterioração – PIRANOT

Ambiente monitorado, uso de luvas e segurança reforçada protegem os dois principais registros originais do Hino Nacional Brasileiro. O manuscrito com a versão definitiva da letra está sob custódia física da Academia Brasileira de Letras (ABL), enquanto a partitura manuscrita da melodia permanece sob guarda da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os documentos são mantidos em acervos diferentes, mas recebem cuidados semelhantes contra a ação da umidade, da acidez, do suor e de outros agentes capazes de deteriorar o papel. O manuseio exige obrigatoriamente luvas técnicas, que evitam a transferência de lipídios, ácidos e suor da pele humana para o suporte de celulose.

Luvas, papel neutro e controle permanente

Na ABL, o manuscrito da letra integra o Arquivo Múcio Leão. O documento autógrafo de Osório Duque-Estrada traz a data de 3 de agosto de 1922, pouco mais de um mês antes da oficialização formal da letra, por meio de decreto, em 6 de setembro de 1922 — véspera do Centenário da Independência do Brasil.

O original é acondicionado em envoltórios de papel com pH neutro (alcalino/tamponado). Segundo Maria Ribeiro, chefe do Arquivo Múcio Leão, o material reduz a migração ácida e ajuda a interromper a acidificação e a quebra das fibras de celulose.

Outro risco está na tinta ferrogálica usada na escrita. Amplamente empregada até o início do século 20, ela contém íons de ferro e ácido sulfúrico, componentes que oxidam e podem corroer ou perfurar o papel com o passar do tempo. O manuscrito foi submetido a um tratamento de estabilização para conter esse processo.

A sala de guarda opera com sistema de ar-condicionado monitorado continuamente 24 horas por dia, controle de temperatura e umidade relativa do ar e barreiras físicas e preventivas contra incêndios. O acesso físico ao cofre e ao ambiente é restrito a um número reduzido de funcionários credenciados do corpo técnico de conservação.

Antes de chegar às áreas de guarda, todo documento recebido pelo arquivo da ABL passa por higienização mecânica. De acordo com a arquivista e restauradora Renata Albino, cada peça segue depois para triagem e, conforme seu estado, para restauração ou conservação preventiva.

Melodia de 1831 antecede a letra oficial em 91 anos

A partitura manuscrita original da melodia, composta por Francisco Manuel da Silva em 1831, está sob guarda permanente da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Biblioteca Alberto Nepomuceno. O documento também é manuseado com luvas para evitar danos ao papel.

Em 1831, a composição foi inicialmente denominada “Hino ao 7 de Abril”, em referência à abdicação de Dom Pedro I. Segundo o professor e maestro André Cardoso, da UFRJ, o andamento de marcha e as figuras pontuadas seguem características típicas dos hinos, enquanto a estética recebeu influência da ópera italiana em voga no Rio de Janeiro do século 19.

A melodia antecede a letra oficial em 91 anos, de 1831 a 1922. Francisco Manuel da Silva faleceu em 1865, cinco anos antes do nascimento de Osório Duque-Estrada, em 1870; por isso, compositor e letrista nunca se conheceram pessoalmente.

A formação da versão atual também passou pelo compositor Alberto Nepomuceno, responsável pela padronização da melodia. O trabalho viabilizou a adaptação prosódica e métrica da letra de Osório Duque-Estrada à música de Francisco Manuel da Silva.

Nesta segunda-feira, 7 de setembro de 2026, quando o Brasil celebra os 204 anos da Independência, a conservação realizada pela ABL e pela UFRJ mantém íntegros os registros materiais da formação de um dos principais símbolos cívicos e de identidade nacional do país.


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Fonte: Piranot – Link original da matéria

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