A desertificação ameaça a disponibilidade de água e a produção de alimentos em áreas que abrangem cerca de 18% do território brasileiro e onde vivem 39 milhões de pessoas, sobretudo no Nordeste.
O alcance foi dimensionado pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. O problema também atinge o norte de Minas Gerais e do Espírito Santo, o nordeste do Rio de Janeiro e o noroeste de Mato Grosso do Sul, com efeitos potenciais sobre agricultura, pecuária, renda, biodiversidade e equilíbrio climático.
A dimensão territorial não significa que toda essa área já tenha se transformado em deserto. A desertificação corresponde à degradação persistente da terra em regiões secas. O risco varia conforme as condições ambientais e o uso do solo, mas o governo federal ainda não divulgou um recorte atualizado por estado e município das populações mais expostas.
Déficit de água reduz a capacidade produtiva da terra
O índice de aridez permite localizar áreas com diferentes níveis de déficit de água disponível, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Quando essa escassez se intensifica, a terra perde capacidade de sustentar atividades como agricultura e pecuária.
Na prática, a degradação reúne riscos que se reforçam: menor retenção de água no solo, erosão, perda de fertilidade e redução da vegetação. Para famílias que dependem da produção rural, o efeito pode chegar à oferta de alimentos, ao consumo dos animais e à renda, especialmente onde o acesso regular à água já é limitado.
A ameaça também alcança comunidades com modos de vida ligados diretamente ao território, entre elas agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas, geraizeiros, pantaneiros e pampeiros.
Área afetada cresce 170 mil km² em duas décadas
Entre 2000 e 2020, a área brasileira afetada pela desertificação passou de 1,35 milhão para 1,51 milhão de quilômetros quadrados. O aumento de 170 mil km² equivale à soma dos territórios de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.
Em 1997, o Brasil aderiu à Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação. Em 2023, estudos do Cemaden e do Inpe identificaram pela primeira vez uma região de clima árido no país, com cerca de 6 mil km² entre Pernambuco e Bahia. Ainda não existe no território brasileiro uma região classificada como deserto pelo índice de aridez.
Caatinga concentra os níveis mais graves de degradação
Cerca de 11% da Caatinga, o equivalente a aproximadamente 100 mil km², está em situação crítica ou severa. O bioma também perdeu 42,6% de sua vegetação nativa, o que amplia a exposição do solo à erosão e à perda de umidade.
A Caatinga exerce ainda uma função climática relevante. Em 2022, o bioma respondeu por cerca de metade do sequestro líquido de carbono do país, conforme resultados científicos publicados em 2025. A degradação de sua vegetação, portanto, não se limita à produção rural: também compromete a capacidade de retirar carbono da atmosfera.
Recuperação de 10 milhões de hectares depende de execução
O Programa Recaatingar, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, estabelece a meta de recuperar 10 milhões de hectares da Caatinga até 2045. O Instituto Nacional do Semiárido está entre as instituições parceiras da iniciativa.
Em 6 de março de 2026, o ministério anunciou em Teresina, no Piauí, o lançamento do Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca. A estratégia articula medidas de meio ambiente, educação, saúde, assistência social, infraestrutura, acesso à água, inclusão produtiva e inovação tecnológica.
O enfrentamento inclui restauração ambiental, manejo do solo e tecnologias de convivência com regiões secas, como captação de chuva, cisternas e barragens subterrâneas. A Articulação do Semiárido Brasileiro, formada por mais de 3 mil organizações, atua há mais de 25 anos com essas soluções, que fornecem água para famílias, criação de animais e produção de alimentos.
O orçamento e o cronograma detalhado das políticas federais ainda não foram divulgados. A COP17 será realizada na Mongólia entre 17 e 28 de agosto de 2026 e discutirá medidas contra a degradação da terra; para o Brasil, o próximo passo é transformar as metas de recuperação em ações mensuráveis que preservem água, solo e capacidade produtiva.



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