Falsas vagas levam 23 brasileiros do Camboja a Madagascar – PIRANOT

Uma rede de tráfico humano transferiu 23 brasileiros do Camboja para Antananarivo, capital de Madagascar, após o aumento da fiscalização no Sudeste Asiático. Aliciado por falsas ofertas de trabalho divulgadas no Telegram, o grupo foi identificado em situação de exploração laboral no país africano, em caso revelado na quarta-feira (2).

As propostas prometiam empregos em suporte de tecnologia, passagens, hospedagem e remuneração elevada. Os brasileiros chegaram ao Camboja em meados de abril de 2026, tiveram os passaportes apreendidos e foram levados para complexos fechados conhecidos como scam centres.

Nesses locais, eram submetidos a jornadas de trabalho forçado de 10 a 12 horas diárias, sob vigilância armada. O grupo fazia chamadas telefônicas e abordagens digitais destinadas à aplicação de fraudes e golpes financeiros contra vítimas no Brasil.

Pressão policial desloca grupo para Madagascar

Em 2025, conflitos fronteiriços entre Tailândia e Camboja se intensificaram, enquanto forças policiais ampliaram a repressão às centrais de fraudes no Sudeste Asiático. Segundo a organização The Exodus Road Brazil, a pressão levou os responsáveis pelo esquema a transferir os 23 brasileiros para Madagascar a fim de escapar das investigações.

A organização avalia que as redes passaram a se dispersar também por Paraguai, Ucrânia, Armênia, Malásia e Emirados Árabes Unidos. Os dados oficiais, contudo, ainda não permitem classificar Madagascar como parte de uma rota consolidada de tráfico internacional.

Segundo dados do Ministério da Justiça, 84 vítimas brasileiras de tráfico internacional foram identificadas em 2025, das quais 44 tinham o Camboja como principal destino registrado — pouco mais da metade do total. O Governo Federal ressalta que a clandestinidade do crime provoca expressiva subnotificação.

Prisão, ameaças e fuga para o aeroporto

Em 19 de agosto de 2026, autoridades policiais de Madagascar fizeram uma incursão no complexo e prenderam o grupo de 23 brasileiros. Durante a detenção, segundo relatos das vítimas, eles permaneceram por quatro dias em uma cela sem iluminação, instalações sanitárias, água ou alimentação e sofreram ameaças com armas de fogo.

Após deixarem a cela para serem transportados em uma van, os brasileiros fugiram e se refugiaram no Aeroporto Internacional de Antananarivo, onde passaram a aguardar intervenção consular para a repatriação.

As vítimas relataram à The Exodus Road Brazil que policiais de Madagascar teriam tentado devolver o grupo à organização criminosa por US$ 250 mil, valor que posteriormente teria sido fixado em US$ 400 mil. A acusação e os valores são atribuídos aos depoimentos do grupo. A Polícia Federal e o Federal Bureau of Investigation (FBI) acompanham o caso para identificar as ramificações internacionais e os operadores financeiros da rede.

Ofertas vantajosas demais são sinal de alerta

O Ministério das Relações Exteriores mantém alerta para que brasileiros recusem propostas de trabalho no Sudeste Asiático ou em trajetos suspeitos que ofereçam contratação rápida, altos salários ou ausência de contrato formal prévio. O Ministério da Justiça recomenda verificar a existência da empresa, exigir informações claras sobre remuneração, jornada, alojamento e retorno e não entregar documentos pessoais a recrutadores.

O recrutamento, transporte ou acolhimento de uma pessoa mediante fraude, ameaça ou coação para submetê-la à exploração pode caracterizar tráfico de pessoas. Suspeitas podem ser comunicadas anonimamente pelo Disque 100, pelo Ligue 180 em situações de violência contra mulheres ou pelo canal Comunica PF, da Polícia Federal.


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Fonte: Piranot – Link original da matéria

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