A Índia voltou a permitir nesta segunda-feira (24) exportações de trigo em grão, enquanto riscos no Mar Negro pressionam a oferta mundial. O país é o segundo maior produtor mundial do cereal e havia restringido as vendas externas em 2022.
A abertura pode ampliar a disponibilidade internacional do cereal e conter parte da pressão sobre as cotações. O efeito, porém, depende de quanto trigo indiano será vendido, do calendário dos embarques e das condições comerciais.
Antes do anúncio, os contratos de referência em Chicago eram negociados a US$ 6,8375 por bushel, perto do maior nível desde junho de 2024. A cotação mostra um mercado pressionado, mas não permite calcular isoladamente quanto a decisão indiana poderá alterar o preço da farinha ou do pão no Brasil.
Restrições começaram em 2022 e avançaram por cotas
Em 13 de maio de 2022, a Índia restringiu as exportações de trigo em grão. Em 27 de agosto daquele ano, o governo ampliou os controles para farinha e produtos relacionados, numa política que permaneceu sujeita a autorizações específicas.
Em janeiro de 2026, uma cota de 500 mil toneladas de farinha e derivados foi autorizada. Em 24 de fevereiro, a Direção-Geral de Comércio Exterior da Índia permitiu outras 500 mil toneladas, levando o volume autorizado a 1 milhão de toneladas. A notificação, contudo, dizia expressamente que a classificação geral desses produtos continuava como “proibida”.
A última colheita indiana teria alcançado o recorde de 120,6 milhões de toneladas. Sem validação pela instituição estatística responsável, o número não permite estimar sozinho quanto o país terá disponível para exportação.
Maior oferta não garante pão mais barato no Brasil
A possível entrada de trigo indiano ocorre num momento em que o Brasil mantém exposição ao mercado externo. A Companhia Nacional de Abastecimento projetou, em junho de 2026, produção brasileira próxima de 6,3 milhões de toneladas na safra 2025/26.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que as compras brasileiras de trigo e centeio não moídos da Argentina somaram US$ 564,88 milhões entre janeiro e julho de 2026. O valor ficou 25,27% abaixo dos US$ 755,98 milhões registrados no mesmo período de 2025.
Somente em julho, essas importações recuaram 7,06%, de US$ 122,96 milhões em 2025 para US$ 114,27 milhões em 2026. Os valores medem o desembolso comercial, não o volume físico comprado; portanto, também refletem variações de preço e não demonstram, isoladamente, menor dependência do produto estrangeiro.
Uma oferta mundial maior tende a reduzir a pressão sobre compradores, moinhos e indústrias de alimentos. Isso não garante queda imediata no preço pago pelo consumidor em Piracicaba ou no restante do país: câmbio, frete, qualidade do grão, estoques, contratos já firmados e custos internos ainda participam da formação do preço.
Embarques definirão o alcance da abertura
As condições completas da liberação — como produtos abrangidos, eventual limite quantitativo, exigências para exportadores e data efetiva dos embarques — ainda não foram divulgadas. A notificação de 24 de fevereiro de 2026 trata apenas da cota adicional de farinha e mantém a proibição geral naquele ato.
Na prática, o impacto dependerá dos contratos e dos embarques efetivamente realizados. Se o trigo indiano chegar ao mercado em volume relevante, poderá ampliar a oferta internacional e reduzir parte da pressão externa sobre compradores brasileiros, embora câmbio, frete e custos internos continuem determinantes para o preço da farinha e do pão.



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