Marcos Farhat é engenheiro agrônomo e atual diretor-presidente da Coplacana, uma das maiores e mais tradicionais cooperativas do agronegócio brasileiro. Com mais de 32 anos de atuação na instituição, consolidou sua trajetória como uma das principais lideranças do cooperativismo e do setor sucroenergético na região.
Fundada em 1948, a Coplacana atravessou a mecanização das lavouras, a expansão da agricultura de precisão e a entrada da inteligência artificial no campo. Agora, diante de custos altos, clima instável e sucessão familiar, a pergunta é direta: como manter a propriedade rural economicamente sustentável?
Sucessão, custos e permanência no campo
Quais são hoje os principais desafios enfrentados pelo agronegócio na região de Piracicaba?
Marcos Farhat — “Piracicaba é a nossa região mais antiga de atuação, desde 1948. Fundada na cidade, a Coplacana acompanhou todo o seu desenvolvimento ao longo das décadas. Com o tempo, a região passou por transformações naturais, como a divisão das propriedades, o que acaba configurando uma espécie de reforma agrária espontânea.
Por ser uma região tradicional, os principais desafios são manter o produtor na atividade e garantir a continuidade dos negócios familiares. A propriedade precisa ser economicamente sustentável para sustentar a família que dela vive. Além da manutenção da produção, a sucessão familiar é um dos grandes desafios.
Existem ainda fatores socioeconômicos, custos de produção, condições climáticas, relevo e características do solo. Esses, porém, fazem parte da atividade agrícola e são desafios naturais sobre os quais nem sempre temos controle.”
“A propriedade precisa ser economicamente sustentável para sustentar a família que dela vive.”
Marcos Farhat
Como a Coplacana tem ajudado os produtores rurais a enfrentarem os impactos das mudanças climáticas e períodos de seca?
Marcos Farhat — “São fatores que pouco conseguimos controlar. Fenômenos como o El Niño, por exemplo, têm efeitos diferentes dependendo da região. As mudanças climáticas são resultado de ciclos naturais e de diversos fatores ambientais que interferem no clima.
Por isso, a ciência e a tecnologia têm papel fundamental no enfrentamento desses desafios. Hoje, existem soluções que permitem desenvolver sistemas radiculares mais profundos, variedades mais tolerantes à seca, além de práticas como a conservação de mananciais, o manejo adequado do solo e o plantio direto de cereais.
Temos formas de mitigar os impactos da seca por meio da adoção de novos manejos e tecnologias. A Coplacana incentiva essas práticas em seus projetos de ESG, atuando não só na sustentabilidade ambiental, mas também nos pilares social e de governança.”
Tecnologia, dados e cooperativismo
A entrevista mostra um campo cada vez menos intuitivo e mais dependente de dados. Agricultura de precisão, máquinas autônomas e armazenamento em nuvem deixaram de ser discurso futurista para entrar na gestão cotidiana das propriedades.
A cooperativa vem investindo em tecnologia no campo. Quais novidades estão sendo implementadas para os cooperados?
Marcos Farhat — “Quando falamos em tecnologia e inovação, estamos trabalhando intensamente com Inteligência Artificial, agricultura de precisão e máquinas autônomas.
Hoje, o produtor dispõe de ferramentas que auxiliam diretamente na tomada de decisão. É impossível pensar na agricultura moderna sem pensar em tecnologia, pois ela torna tudo muito mais rápido e assertivo.
No passado, muitas informações se perdiam. Atualmente, com o Big Data e o armazenamento em nuvem, é possível reunir e analisar grandes volumes de dados para apoiar a gestão da propriedade. As novidades surgem diariamente. Assim como a robótica revolucionou a medicina, a agricultura também vive essa transformação tecnológica.”

Qual a importância da Coplacana para a economia de Piracicaba e das cidades da região?
Marcos Farhat — “Pesquisas mostram que regiões com forte presença do cooperativismo apresentam índices de desenvolvimento humano mais elevados. Isso acontece porque as cooperativas atuam com princípios e valores voltados ao desenvolvimento, à educação e à integração com a sociedade. Nosso modelo de gestão tem como foco o crescimento do produtor, incentivando sua capacitação e disseminando conhecimento entre os cooperados.
A cooperativa também exerce um importante papel como balizadora de preços, não apenas de commodities agrícolas, mas também de insumos, máquinas e implementos.
Diferentemente de uma sociedade anônima, a cooperativa não pertence a um único dono. Hoje contamos com quase 14 mil cooperados, grande parte deles em Piracicaba e região, oferecendo apoio tanto aos produtores quanto às suas famílias por meio de qualificação, acompanhamento técnico e desenvolvimento de projetos. Essa participação no meio social gera benefícios para toda a comunidade.”
Como o senhor avalia o atual cenário do setor sucroenergético no Brasil?
Marcos Farhat — “Estamos vivendo um momento de preços mais baixos devido às interferências do mercado externo. O setor sucroenergético é fortemente influenciado pelo mercado internacional e, por isso, alterna períodos de alta e baixa.
Diversos países produzem açúcar e etanol a partir da cana-de-açúcar, sendo o Brasil o maior produtor mundial, seguido pela Índia. No caso do etanol, o Brasil é referência nesse combustível sustentável.
Além disso, a cana também gera energia, tornando o setor sucroenergético uma grande potência. Trata-se de uma cultura renovável, com importante capacidade de captura de carbono e grande contribuição para a sustentabilidade.”
Sustentabilidade e apoio ao produtor
A sustentabilidade tem sido cada vez mais discutida no agronegócio. Quais ações ambientais a Coplacana desenvolve atualmente?
Marcos Farhat — “Trabalhamos com práticas sustentáveis por meio do acompanhamento agronômico, incentivando o uso racional e correto de insumos com base em análises de solo, além de ações permanentes de educação ambiental.
Desenvolvemos um projeto de descarbonização e a Coplacana assumiu, durante a COP 30, o compromisso de zerar suas emissões até 2040. Também orientamos os cooperados na recuperação de áreas degradadas, APPs e mananciais, promovendo treinamentos e assistência técnica.
Há muitos anos realizamos um importante trabalho por meio da Central de Recebimento de Embalagens Vazias de Defensivos Agrícolas, garantindo a destinação ambientalmente correta desses materiais. Além disso, abrimos as portas da Coplacana para escolas durante o Dia do Campo Limpo, promovendo atividades como peças teatrais de conscientização ambiental.
São programas permanentes que fazem parte dos princípios do cooperativismo e da nossa atuação.”
A cooperativa possui projetos voltados para pequenos produtores rurais? Como funciona esse apoio?
Marcos Farhat — “Na Coplacana, seguindo os princípios do cooperativismo, todo cooperado é tratado de forma igual e possui direito a voto, independentemente do tamanho da propriedade. Somos uma sociedade de pessoas, e não de capital.
O produtor, seja pequeno, médio ou grande, deve ser atendido conforme suas necessidades, de maneira equânime. Assim como o grande produtor, o pequeno também recebe assistência técnica, orientação e capacitação.
No Coplacampo, por exemplo, contamos com o espaço ‘Pequenos Produtores, Grandes Negócios’, onde eles têm a oportunidade de comercializar seus produtos e ampliar sua visibilidade.”
Quais são os planos e metas da Coplacana para os próximos anos?
Marcos Farhat — “A cooperativa tem como objetivo principal atender às necessidades dos produtores em sua essência, especialmente na área de produção. Trabalhamos para garantir a perenidade da instituição, com boa gestão e sólida governança, buscando um crescimento sustentável que assegure a continuidade e o fortalecimento do negócio.
Mantemos o cooperado no centro de todas as decisões. Escutamos suas necessidades para construir nosso planejamento estratégico. Se uma iniciativa é positiva para o cooperado, fazemos o máximo para implementá-la dentro da cooperativa.”
“Na Coplacana, seguindo os princípios do cooperativismo, todo cooperado é tratado de forma igual e possui direito a voto.”
Marcos Farhat

Formação, cidade e nova geração
O ponto mais sensível da conversa aparece quando Farhat aproxima campo e cidade. O agronegócio que produz na fazenda depende de indústria, tecnologia, transporte, máquinas, dados e consumo urbano. A fronteira entre rural e urbano, na prática, é menor do que parece nas redes sociais.
Como a Coplacana trabalha a capacitação e qualificação dos produtores e colaboradores?
Marcos Farhat — “Fazemos isso de diversas maneiras. Nossos eventos abordam principalmente técnicas de produção, formas de produzir mais com menos, gestão de custos e programas de capacitação voltados à agricultura e à pecuária.
Realizamos dias de campo, atividades práticas e cursos, pois esse é o papel da cooperativa: promover conhecimento.
Como exemplo, realizaremos o 2º Jovem Coop, um evento que reunirá jovens de diferentes cooperativas e núcleos para compartilhar experiências e conhecimento.
Para os colaboradores, contamos com a Universidade Coplacana, que oferece cursos sobre diversos temas, promovendo a democratização do conhecimento. Afinal, nunca paramos de aprender.”
O agronegócio enfrenta muitas críticas nas redes sociais. Como o senhor vê essa relação entre campo e sociedade urbana?
Marcos Farhat — “O meio rural e o urbano estão totalmente conectados. O agro passa por toda uma cadeia que envolve produção, transformação, transporte e consumo.
Produzimos na fazenda, mas consumimos nos centros urbanos. Ao mesmo tempo, para produzir no campo, dependemos de tratores, caminhonetes, caminhões, colheitadeiras, drones e diversos equipamentos fabricados pela indústria instalada nas cidades.
Por isso, precisamos comunicar melhor o nosso trabalho. O agro é uma cadeia integrada: produz no campo, processa na cidade e abastece toda a população. Faz parte da vida de todos e integra um grande sistema econômico e social.”
Quais avanços o senhor destacaria na modernização do campo nos últimos anos?
Marcos Farhat — “O Brasil conta com instituições de referência, como a Embrapa e a Esalq, além de cientistas de grande relevância que trabalham continuamente no desenvolvimento da agricultura.
Os avanços tecnológicos, científicos e de inovação têm permitido ganhos expressivos de produtividade, sustentabilidade e eficiência, tornando o campo cada vez mais moderno e preparado para os desafios futuros.”
Que mensagem o senhor deixaria para os jovens que desejam ingressar no agronegócio e seguir carreira no setor rural?
Marcos Farhat — “Antigamente, o jovem começava a trabalhar muito cedo na atividade rural. Hoje, a realidade é diferente, com uma adolescência mais longa e uma enorme quantidade de informações disponível por meio da tecnologia.
Precisamos pensar na perenidade da gestão do campo. O jovem de hoje está conectado, utiliza tecnologia e possui acesso a inúmeras ferramentas. Nosso papel é direcioná-lo e prepará-lo, pois ele representa o futuro do setor.
É essa nova geração que dará continuidade à produção de alimentos e ao desenvolvimento do país. Por isso, o jovem deve buscar envolvimento, estudar e procurar conhecimento. A educação continua sendo a base de tudo. O inovador, hoje, é ser agro!”
“O agro é uma cadeia integrada: produz no campo, processa na cidade e abastece toda a população.”
Marcos Farhat
Análise do editor: Júnior Cardoso
A entrevista deixa uma mensagem política e econômica clara: o futuro do agronegócio regional não depende apenas de produtividade, mas de sucessão, gestão, tecnologia e capacidade de explicar à cidade o que acontece no campo. Farhat defende o cooperativismo como ferramenta de permanência do produtor na atividade. O ponto de atenção é que sustentabilidade, inovação e governança precisam sair do discurso institucional e chegar ao pequeno produtor como prática diária, assistência técnica e resultado econômico.
Há também uma contradição urbana que Piracicaba precisa encarar. A cidade conserva uma imagem fortíssima ligada à agronomia, à ESALQ e à USP, mas a metrópole dos últimos anos parece cada vez mais distante do agro que ajudou a formar sua identidade. Canaviais e pastos cedem espaço a condomínios, avenidas, polos industriais e serviços. Hyundai, Caterpillar, Case New Holland e tantas outras empresas também contam a história econômica local. Nesse cenário, a pergunta incômoda é inevitável: quanto da Piracicaba metropolitana ainda se reconhece como agro?
O desafio, portanto, não é apenas produzir melhor. É recolocar o agro na conversa pública da cidade, com transparência, dados e disposição para ouvir. Se o campo quer ser compreendido pela população urbana, precisa explicar melhor como gera renda, tecnologia, alimento, energia e impacto ambiental. E Piracicaba, por sua vez, precisa discutir por onde essa conversa acontece: na escola, na universidade, nas cooperativas, na imprensa, nos bairros e nas decisões sobre o uso do território.



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